Texto:
Fernando Gusmão - encenação
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| Data de Início | Data de Fim | Local |
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1963 |
1963 |
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a apresentação do espectáculo dá-se entre 1962 e 1965; a fonte Malaposta, nº3 refere: «Num ensaio de censura, um censor (...) resolve cortar barbaramente a peça de maneira a torná-la irrepresentável. A estreia é adiada dez dias»; na obra de Graça dos Santos (ver «Fontes») pode ler-se: «Em A Fala da Memória, Fernando Gusmão retoma a questão da total dependência dos artistas face ao exercício da censura. Tomando como exemplo Os Três Chapéus Altos de Miguel Mihura, que levou à cena para o Teatro Moderno de Lisboa (TML), relembra as diferentes malhas dessa teia que era o dispositivo censório do regime. Logo na primeira etapa (censura do texto), foram impostos numerosos cortes que desvirtuaram a peça, com a obrigação, por exemplo, de alterar as personagens principais: um dançarino russo passa a «dançarino negro americano». «Éramos claramente vigiados», diz F. Gusmão, que descreve o ensaio de censura controlado por mais de dez censores que, cúmulo do ridículo, seguiam o texto com lanternas de bolso a fim de verificar a conformidade do texto dito com o texto visado pela censura. Este episódio é enriquecido com outros elementos fornecidos por Costa Ferreira (que dirigia então o TML). Relembra a «ferocidade» e «brutalidade» dos censores que truncaram a peça de tal forma que se tornou irrepresentável. A fim de introduzir as alterações exigidas, a estreia teve que ser atrasada em dez dias, com grande prejuízo fianaceiro para a companhia. E ele conta como tiveram que mudar o texto da personagem a quem foi proibido ver «as luzes vermelhas de um farol», da sua janela que dava para o mar. Obrigados a alterar esta cor que, tal como o dançarino russo, poderia fazer lembrar o comunismo, puseram a personagem a dizer que as luzes do farol eram roxas!»
Malaposta - Revista do Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett, nº3, 1989; programa do 1º Ciclo Gulbenkian de Teatro (1963); SANTOS, Graça dos, O espectáculo desvirtuado. O teatro português sob o reinado de Salazar (1933-1968), Editorial Caminho, 2004, p. 273; DOLORES, Carmen, Retrato inacabado: Memórias, O Jornal, Lisboa, 1984, p. 135